segunda-feira, 8 de abril de 2013

Especialista de Final de Semana

Outro dia minha esposa quis, em virtude da comemoração de seu aniversário, ir a um restaurante específico aqui de Curitiba. É um local que vem ganhando muita notoriedade dentro de alguns círculos, devido à sua proposta e conceito diferentes e inovadores.

Como sou muito chato, além de crítico e irritado, antes de concordar em ir ao referido restaurante, resolvi realizar uma pesquisa prévia sobre o lugar, coletar algumas opiniões, etc.

Visitando alguns sites e blogs destinados a frequentadores locais, encontrei várias referências positivas e algumas negativas a respeito do meu objeto de pesquisa.

Devido à algumas características bem próprias desse restaurante, logo percebi uma tendência comportamental nos comentários de alguns de seus frequentadores.

Observei que, vários desses clientes que comentaram sobre o tal restaurante, claramente se colocavam em um patamar muito acima de meros frequentadores/clientes regulares. Se consideram pessoas extremamente refinadas e com muito bom gosto, pois somente alguém como eles teria plena capacidade e discernimento para conseguiu apreciar plenamente à complexidade de sabores e nuances apresentados nos pratos servidos pelo estabelecimento.

Meio confuso?

Dou um exemplo. Li várias opiniões, onde o indivíduo deixa sua opinião seguindo a seguinte linha de raciocínio: Esse não é um restaurante para pessoas que vão em restaurantes italianos (sejam caros ou baratos) e adoram aqueles pratos cheios de molhos de queijo, etc.

Sério, li algo do gênero.


Pergunto: por que não? O que impede alguém que goste de comida italiana (ou de qualquer outra nacionalidade), conseguir apreciar os pratos realmente diferentes servidos nesse restaurante em questão? E se o cara gostar de comer costela então? Certamente não estaria qualificado nem para passar na porta.

A maioria dos comentários seguia essa linha, desqualificando de maneira totalmente sem sentido "os outros" que não gostaram desse local "diferenciado".

Só quero deixar claro aqui que isso se trata de opiniões idiotas de frequentadores idiotas, não havendo qualquer relação com o estabelecimento em si, sua administração e atendimento que são extremamente corteses, preparados e profissionais.

Ainda, durante minha pesquisa, verifiquei a existência de inúmeros pretensos "especialistas" em alta-gastronomia, culinária de vanguarda e suas técnicas inovadoras. Me deparei com várias pessoas discorrendo sobre temas como culinária molecular, cozinha autoral, culinária técno-emocional e um monte de outras besteiras que só interessam mesmo para quem faz a coisa acontecer. 

Chamei essas pessoas de "especialistas de final de semana". Você conhece o tipo. É um mané qualquer que leva uma vida igual a todos, porém se acha "diferenciado". É sempre um cunhado, primo, vizinho ou outro babaca qualquer que foi uma única vez em determinado local ou experimentou uma única vez determinado produto e sai narrando sobre o mesmo como se fosse especialista no assunto, adotando uma postura de superioridade que não tem nenhum respaldo. É o mesmo tipinho do chato do vinho, de quem, aliás, já tratei anteriormente aqui

Nada pior do que alguém que você acha um imbecil vir te dar "aula" sobre determinado assunto como se o imbecil despreparado ali fosse você.

Algo assim:  

"- Ah, isso não é para qualquer um. Quem vai em churrascaria não vai apreciar direito." 

Em sua tradução literal teríamos o seguinte:  

"- Ah, você é muito grosseiro, muito burro. Diferentemente de mim, não tem a sensibilidade nem o refinamento necessários para apreciar tamanha complexidade."

Já passou por situação semelhante?

Noto que esse comportamento está ficando cada vez mais comum aqui em Curitiba. E isso é em relação a vários assuntos. As pessoas querem afetar uma sofisticação que não tem. 

Mas afinal de contas, qual é o problema com essas pessoas?

Normalmente, o "especialista de final de semana" é um burro ignorante que não consegue ter opinião própria sobre nada, sendo que o que diz ou faz é, invariavelmente, mera repetição do que outros já disseram ou fizeram. Nem mesmo se dá ao trabalho de pensar no que diz. Apenas despeja suas bobagens decoradas.

Normalmente sua opinião está em conformidade com a última coisa que acabou de ler ou tomar conhecimento. É facilmente influenciável, desde que entenda que determinada atitude ou informação também é "diferenciada", o que dá ainda mais corda ao "especialista". 

Gosta de se relacionar com outras pessoas assim como ele e, quando se depara com um "pobre diabo"  que criticou a sua opinião, argumenta que não tem seu refinamento e gosto apurado, imediatamente se coloca a explicar sobre como são as coisas e o que vale a pena, mesmo achando que o "pobre diabo" jamais terá capacidade de absorver plenamente sua transmissão de conhecimentos. Na verdade é melhor assim, pois nosso especialista entende que o "pobre diabo" não merece ter acesso a certas informações, devendo tais informações ficarem restritas a certos círculos e não serem divulgadas por aí por qualquer um.  

P.S. O restaurante em si que mencionei aqui não vem ao caso. Falarei dele futuramente em momento oportuno.

   

Um comentário:

  1. É a verdade nua e crua. Conheço gente assim.

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